Com o aumento das tensões entre EUA e UE, Brasil emerge como parceiro estratégico em clima e comércio.
Em seu segundo mandato na presidência dos EUA, Donald Trump se tornou a principal causa de incerteza política global, desestabilizando mercados financeiros e tomadores de decisões. As tarifas recíprocas anunciadas em 2 de abril, utilizadas como instrumentos de coerção, e as ameaças na área de defesa forçaram até aliados próximos a reavaliar sua abordagem nas relações bilaterais.
Em resposta aos rompantes de Trump, Brasil e União Europeia vêm buscando adotar abordagens diplomáticas, ainda que o bloco europeu se mostre inclinado a retaliações. Enquanto procura negociar diretamente com os EUA, a UE atrasa contramedidas já definidas – as tarifas impostas pelos EUA sobre aço e alumínio, por exemplo, serão respondidas com a taxação de produtos americanos icônicos – uísque, motocicletas e jeans. O Brasil, por sua vez, aprovou a Lei de Reciprocidade Econômica, com a perspectiva de retaliação em temas sensíveis, como propriedade intelectual.
As sobretaxações (e possíveis retaliações) encarecem produtos nos mercados envolvidos e estimulam fluxos comerciais paralelos aos EUA. Isso evidencia a urgência de novos mercados para a UE, mas também para países como China e Brasil. A UE, que recentemente demonstrou interesse em reabrir discussões sobre taxações à China, deve ser cautelosa em renovar laços com o país asiático — estratégia adotada no primeiro mandato de Trump que potencializou sua dependência tecnológica, especialmente nos setores de veículos elétricos e baterias.
Sediando a COP 30 em Belém, o Brasil tenta se firmar como líder em sustentabilidade e no combate às mudanças climáticas. A pauta também é central para a UE, que, além de metas climáticas ambiciosas, lidera legislações ambientais como o Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira (CBAM) e o Regulamento Antidesmatamento (EUDR). Embora restritivas, essas normas já mobilizam empresas brasileiras a se adequarem, visando manter ou ampliar sua presença no mercado europeu.
Nessas circunstâncias, setores complementares da UE e do MERCOSUL podem se beneficiar do tarifaço de Trump e retaliações europeias. O momento favorece a narrativa de que a perda de acesso ao mercado estadunidense pode ser compensada pelo fortalecimento das relações entre os blocos. Apesar da resistência do setor agrícola europeu, a assinatura do Acordo MERCOSUL-UE ganha força como alternativa às tarifas dos EUA, de forma que a entrada em vigor da parte comercial do acordo pode se tornar prioridade para a UE. A França, embora uma adversária histórica deste acordo, parece mais inclinada a aceitá-lo devido ao contexto atual.
À medida que UE e EUA se distanciam também em temas políticos e de defesa, a coesão interna europeia se fortalece, marcando um despertar da União para a necessidade de autonomia geopolítica. Desde que os EUA exigiram maior investimento em defesa pelos países da OTAN, questões de segurança tornaram-se centrais na EU, que começa superar sua postura leniente, inclusive diante de ameaças de Trump à Groenlândia. O bloco agora busca se rearmar e ampliar seus investimentos — com propostas de até 700 bilhões de euros —, visando assumir um papel mais central não apenas na guerra da Ucrânia, mas também em um cenário internacional incerto.
Com a deterioração das relações com os EUA, a União Europeia busca um futuro mais soberano e parece interessada em se afastar de Washington, como afirmou Friedrich Merz, novo chanceler alemão. A diversificação de parceiros, num contexto em que pautas ambientais ganham força no Brasil e são abrandadas na UE, favorece o fortalecimento das relações bilaterais, especialmente sob a perspectiva do Acordo MERCOSUL-UE.
Autores:
Ana Laura Sellmann – Consultora de Comércio Internacional na BMJ Consultores Associados
Victor Jaumouillé – Consultor de Política Internacional na BMJ Consultores Associados